"Palavras não como preciosidades, mas como necessidades" - Charles Bukowski

 

Como você pode ver, decidi mudar o nome do blog. Sabe como é, né, final de ano dá nessas coisas. Dá vontade de mudar alguma coisa, por mínima que seja.

Então decidi tascar lá em cima, no cabeçalho, um antigo ditado que todo mundo conhece: 'Quem cala, consente'.

Só que pra ficar mais chique, botei em latim.

Ah! E a citação do Bukowski acima me veio à cabeça enquanto tentava pensar em algo para escrever nestes dias que antecedem as festas de fim de ano. E porque, quando escrevo, não penso na preciosidade das palavras, mas na necessidade de screvê-las.

Para ser sincero, meu texto nunca foi precioso. Mas nem por isso vou deixar de escrever o que penso.

Admiro aqueles que se põem a escrever com esmero, intelectuais que imprimem aos seus textos características literárias e dão brilho às palavras.

Não sei fazer assim; faço do meu jeito!

Tenha um feliz Natal

Inchaço do Estado

tem raízes históricas


O Blog do jornalista Fernando Rodrigues (UOL) está recheado de informações sobre o estudo do Ipea que revela que um em cada cinco trabalhadores brasileiros é servidor público. Para facilitar a leitura vou enumerar as principais informações, em continuidade à coluna do dia 15 - "Olha só o tamanho do fardo que carregamos":

Os dados foram divulgados pelo Ipea (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas) em um estudo chamado “Presença do Estado no Brasil”.

Logo na introdução do trabalho, uma frase famosa do economista Celso Furtado (1920-2004) mostra que o inchaço da máquina pública brasileira tem raízes históricas: “O Brasil é uma criação do Estado português. Não se trata de uma sociedade que construiu um Estado e sim de um Estado que constituiu uma sociedade”.

 

“Com fome não haverá

um futuro sustentável”


Leio no jornal Valor Econômico de hoje (16), o artigo de José Graziano da Silva, representante regional da FAO para a América Latina e Caribe. “A sociedade não pode mais negligenciar: enquanto houver fome não haverá futuro sustentável”, escreve ele.

Concordo inteiramente com o seu raciocínio, segundo o qual, “quando se coloca na balança uma criança subnutrida, o que está sendo pesado na verdade não é apenas um organismo enfraquecido, mas a síntese de uma lógica tão nefasta quanto a que derruba florestas, sopra destruição e exclui a possibilidade de vida digna a bilhões de pessoas em todo o mundo.”

Minha intenção inicial era reproduzir o artigo por inteiro, mas seu autor, em minha opinião, poderia ter aprofundado a questão que coloca inicialmente. Ao invés disso, enveredou para o caminho das mudanças climáticas e revelou ser um crédulo quanto ao resultado da conferência do clima que se realiza em Copenhague, imaginando que ela “pode inaugurar um novo ciclo”.

Como sou cético em relação à conferência climática, decidi – e aqui posso fazer isso – aproveitar apenas parte de seu texto, a que fala da fome no mundo. Tenho a mais absoluta convicção de que enquanto ela persistir, nos níveis em que se encontra, não há outra coisa a fazer a não ser combatê-la tenazmente.

Qualquer outra discussão que os terráqueos promovam só vai servir para mascarar a verdadeira tragédia humana que precisa ser enfrentada: a catastrófica existência de mais de um bilhão de famintos no planeta.

E não me venham com a balela de que essa tragédia seja fruto das mudanças climáticas. É, sim, fruto da incompetência, da insensibilidade e da intolerância dos governam e dos que são governados.  

 

 

Olha só o tamanho do

fardo que carregamos

 

No Brasil, todo mundo quer ser funcionário público. Claro, existem exceções, mas são tão raras que nem vale a pena mencionar.

Qualquer concurso, até para gari, dá perto de mil candidatos por vaga e gente com curso superior ou até pós-graduação, como aconteceu recentemente no Rio. Coisa de louco, sô! Nunca vi tamanha fissura por um emprego público como ultimamente. Todo mundo faz cursos para concursos E nem é preciso dizer porquê, né?

Os cursos especializados em concursos – tem um em cada esquina - nunca ganharam tanto dinheiro, tamanha é a demanda. Acredito até que já superaram o número de farmácias e botecos.

País de abissal desigualdade, o Brasil criou ao longo do tempo duas ‘castas’ de trabalhadores: os de primeira classe, que são os servidores públicos, e os de segunda classe, aqueles que trabalharam no setor privado. E aí todos almejam a primeira classe, é claro.

Pois bem! Estudo divulgado hoje (15) pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) aponta que o emprego público representa 21% das ocupações formais do país, com mais de 8,2 milhões de postos de trabalho. Traduzindo: em números redondos, um de cada cinco trabalhadores formais tem emprego público.

Onde eles estão? Não sei! Porque o serviço público que é prestado à população, em todas as esferas do poder, é - para usar uma expressão presidencial recente – uma merda.

A pesquisa do Ipea – “Presença do Estado no Brasil: Federação, Suas Unidades e Municipalidades” - teve os dados coletados entre junho de 2008 e maio de 2009, com o objetivo de traçar um panorama das três esferas de governo. O estudo deverá ser melhor detalhado no decorrer da semana, mas já tirei minhas próprias conclusões:

Ou partimos para o chamado Estado mínimo, enxuto e eficiente. Ou implantamos o comunismo ortodoxo, onde todos seremos funcionários do poder central comandado pelos camaradas.

Do jeito que está, convenhamos, é o fim dos tempos.

 

Ô merda de sábado chuvoso, sô!

 

O Nóia é um cara que só fala merda.

Não é muito diferente de mim, que, ao invés de falar, escrevo. Ambos sem qualquer constrangimento.

E eu acho que o presidente Lula, como o Nóia e eu, também não deve ter qualquer constrangimento em pronunciar a palavra tida e havida como palavrão.

Aliás, acho que o presidente foi muito feliz em sua colocação – “tirar o povo da merda”. É, no mínimo, o reconhecimento de que o povo está na merda. Poucas vezes vi um presidente admitir isso, em público, em pleno mandato.

Agora, como ele vai fazer para “tirar o povo da merda” é que eu quero ver. Tirar a merda do povo é mais fácil, basta criar um programa de saúde pública com farta distribuição de laxantes. Só que aí vem outra dificuldade: vai faltar esgoto e tratamento para tanta merda, como aliás já falta hoje para metade da população, em razão dos ínfimos investimentos do governo na área de saneamento.

Vou parando por aqui, porque para um sábado chuvoso já falei merda demais.

Bom fim de semana.  

 

Reproduzo nota da coluna do Tutty Vasques no Estadão

País do futuro

Corre à boca pequena em Brasília a necessidade de se criar um programa de corrupção sustentável no País.

Do jeito que está, francamente, é o fim do mundo.

 

O clima esquenta!

E a flatulência bovina

é a bola da vez

 

 

Ah! Eu já sabia que o ‘pum’ dos bovinos ainda vai explodir o planeta. E, pela quantidade de gases que emitem, não vai demorar muito para que isso aconteça.

Olha só que notícia interessante: no Brasil, metade das emissões de gases de efeito estufa (os GEEs) vem da pecuária, como revela estudo feito por grandes universidades e publicado nos jornais de hoje.

Ou seja: se acabarmos com a pecuária vamos reduzir nossas emissões em 50%, feito que nenhum outro país conseguiria atuando num único setor.

Tá! Mas e aí? Como fica o bifinho nosso de cada dia? Ou a costela minga que o meu amigo Xá adora fazer dia sim, dia também?

Ah! Já sei. Criaríamos açougues e churrascarias clandestinas, como existem os cassinos, por exemplo.

Até aí tudo bem! Mas como iríamos esconder os bois clandestinos ou piratas?

Outra idéia luminosa: poderíamos criar o crime organizado da carne bovina. Que tal? De certa forma ele já existe de fato, né. E não é em pequena escala não.

Bem, idiotices à parte, o fato que é que o estudo é sério. Tem bases científicas e deve merecer atenção. O ‘pum’ das vaquinhas é responsável por uma parte (35%) da metade do bolo brasileiro de emissões representado pela atividade pecuária. Ou seja, no final das contas representa 17,5% do total das emissões do país. É significativo, porém tolerável. Afinal, quem é que vai abrir mão da carne bovina e todos os seus derivados.

O problema está na expansão territorial da atividade; nas derrubadas e queimadas presentes na Amazônia e no Cerrado. Estas representam 65% da metade de todas as emissões dos GEEs. Traduzindo: 32,5% do total de emissões do país.

Como temos um rebanho bovino do tamanho da população e como ninguém vai comer um boi por dia, imagino que dê para estancar o crescimento da população bovina por um bom tempo e, assim, frear significativamente a taxa de emissões dos gases de efeito estufa, evitando mais derrubadas e queimadas.

O fato é que a flatulência bovina é mais fácil de ser contida do que a ganância humana e a incompetência governamental.

 

Copenhague: déjà vu

 

Tenho acompanhado a conferência do clima de Copenhague. Mas, devo confessar, sem qualquer expectativa de que algo novo aconteça. Aliás, devo ir mais fundo na minha confissão: não ando lá muito interessado ou preocupado com as mudanças climáticas.

Hoje, me preocupa muito mais a tragédia dos gaúchos e dos paulistanos, que estão, literalmente, debaixo d’água.

Ah! Também me preocupa, todos os dias, a tragédia da desigualdade em nosso país e em outras nações igualmente desiguais e que, somadas, abrigam mais de um bilhão de pessoas famintas.

E isso não é, definitivamente, fruto das mudanças climáticas (ou ainda não é). Isso tem origem na incompetência, na insensibilidade e na falta de compromissos e comprometimentos dos governantes. Ou seja: daqueles mesmos que estão em Copenhague

Faço o que posso enquanto ambientalista (não- fundamentalista), desde as primeiras ações rotineiras do cotidiano: na escovação dos dentes e no barbear; na mijadinha durante o banho curto (não tão curto quanto o recomendado por Chavez); no uso comedido do carro da família; no consumo de produtos os menos nocivos ao meio-ambiente; na rigorosa seleção do lixo em casa; no uso racional e racionado da água e da energia e tantas outras atitudes preservacionistas incorporadas ao dia-a-dia faz tempo.

Tenho ido até um pouco além, com inúmeras sugestões aos administradores do condomínio de apartamentos onde moro e onde já é feita (ainda sem muito rigor, é verdade) a seleção do lixo reciclável. Dia desses inclusive sugeri ao condomínio dispor de um recipiente adequado para descarte de óleo de cozinha.

E enquanto tomo minhas atitudes e ações preservacionistas, fico tentando entender o que se passa na cabeça do ser humano, dos que produzem e dos que consomem. E chego a uma conclusão catastrófica: vamos, sim, destruir o planeta. Mas antes vamos destruir-nos uns aos outros dentro desse sistema capitalista-canibalesco que hoje domina o mundo.

E não adianta vim com essa balela de desenvolvimento sustentável, porque o sistema, como está posto, é insustentável.

O dia em que o mundo voltar seus corações e mentes para os mais de um bilhão de famintos, e resolver essa tragédia, aí sim estaremos a salvo da autodestruição.

Vejamos um exemplo ‘banal’ da intolerância humana: os EUA (cujo presidente recebeu o prêmio Nobel da Paz neste ano) vão enfiar 30 bilhões de dólares ao ano num simples conflito contra uma milícia no Afeganistão.

E ainda tem gente que acredita que a conferência de Copenhague possa trazer algo bom. A esses, sugiro que coloquem a meia na janela à espera do presente que o ‘bom velhinho’ trará na noite de Natal.

 

 

 “O Lula é filho do Brasil e o Brasil, todos sabem, é a casa da mãe Joana.”

Frase cunhada pelo genial Nelson Capucho em sua coluna Mundo Imaginário (www.londrix.com).

A frase, claro, está inserida num contexto onde o jornalista faz uma análise crítica da superprodução cinematográfico-eleitoreira que vai rodar o país inteiro justamente no ano da eleição presidencial.

Recomendo a leitura do ‘Mundo Imaginário’ do Capucho.

O cara é simplesmente genial.

 

Nossos podres poderes

 

Parafraseando a colunista Dora Kramer, do Estadão, não restam mais dúvidas de que o Brasil chegou àquele patamar em que, na impossibilidade de se restaurar a moralidade, locupletam-se todos.

Mas que fique bem claro: todos os que detém poder!

Não há mais diferença alguma entre os partidos, os de esquerda, os de direita, os de centro e as legendas de aluguel. Igualaram-se todos no lamaçal da corrupção e vão para uma campanha, no ano que vem, igualados na imoralidade, irmanados nos escândalos.

Pobre eleitor???

Que nada!

Ele também, infelizmente, está identificado com a pandemia  da corrupção que tomou conta do poder em todas as suas esferas. Está anestesiado e, portanto, distanciado da podridão que assola os poderes e seus entornos.

Nem informação suficiente tem o eleitor para definir-se entre o mais e o menos corrupto, porque é assim que a definição se dará no pleito de 2010.

Não há partidos ou candidatos ‘limpos’ nessa história.

Nem ideais, programas ou princípios a serem defendidos ou ao menos debatidos.

E salve-se quem puder!

 

 

Ramo de arruda

espanta mau

olhado. Sabia?

 

 

Pelo sim, pelo não, botei um raminho de arruda sobre a orelha esquerda.

Não é que tenha receio de crenças folclóricas ou qualquer tipo de superstição.

É que o nome da inofensiva plantinha entrou na mídia pra valer nos últimos dias.

Começou com a moça do vestidinho rosa choque, na grande São Paulo, e foi respingar em Brasília.

Respingar é maneira de dizer, porque o que aconteceu na ‘Bras-ilha da Fantasia’ foi muito mais que merda no ventilador.

Foi, digamos assim, todo o esgoto da capital federal, ou melhor, do distrito inteiro, jogado contra um imenso ventilador.

A moça da Uniban já declarou, em nota oficial, que não tem nenhum parentesco com o governador distrital.

Aí, corri para o telefone e liguei para todos os arrudas que conheço. Aliás, quatro deles jornalistas de mão cheia. Também negaram parentesco com o governador do DF.

Na verdade, eu já sabia. Mas é que nessas horas a gente entra em pânico. Sabe como é que é, né? Depois de ver cenas tão chocantes como as exibidas por todas as redes de televisão – dinheiro na cueca, na meia, oração por propina recebida... – não tem quem não perca o controle e não entre em parafuso.

Então pensei: melhor colocar um raminho bem discreto de arruda na orelha para, como reza a crendice popular, não ser afetado por escândalos tão contundentes quanto bizarros, como os que acontecem por aqui semana sim, semana também.

A outra orelha - a da direita - reservei para colocar uma folha de orégano, para o caso de, mais uma vez, tudo acabar em pizza.

Aliás, disseram-me - não me lembro quem, nem quando - que a folha de orégano tem o incrível poder de proteger-nos das tentações da carne e das fraquezas de caráter.

Gente, não é por nada não. Acontece que, inadvertidamente, lembrei-me da célebre frase do Sérgio Porto, também conhecido por Stanislaw Ponte Preta: “Ou restaure-se a moralidade ou lucopletemo-nos todos”.

É que grande parte dos excluídos das mamatas e sinecuras sofrem de comichão quando vêem cenas de corrupção explícita como as que têm sido reveladas desde que os japoneses inventaram as tais microcâmeras.

Pelo sim, pelo não, é melhor colocar raminho de arruda com folha de orégano nas duas orelhas. E já!

 

Agora minha luta

é a demolição  do

fator previdenciário

 

Tem uns cinco anos que prometi a um amigo que derrubaria o fator previdenciário, o maior crime já cometido contra a classe trabalhadora deste país desde o seu descobrimento.

Dediquei bom tempo à preparação de um dossiê sobre o cruel instrumento que pouca gente tem em mãos. Ele foi aprovado no finalzinho de 1999, meio às escuras, sancionado por FHC e respaldado pelo Judiciário, que derrubou todas as Adins (ações diretas de inconstitucionalidade impetradas contra ele). Naquela época, 10 anos atrás, o Executivo já manipulava os demais poderes, como é hoje e como será sempre.

Mas como cumprir minha promessa, se não detenho poder algum?

Não importa!  Engajei-me na luta a partir de uma PEC (Proposta de Emenda Constitucional) que tramitava no Senado e onde foi aprovada.

O mais engraçado nessa história toda é que o PT era radicalmente contra a medida. Hoje no poder, é favorável à sua manutenção.

A partir daí, tenho, diariamente, disparado e-mails para todos os lados. Devo ter escrito a mais de 100 deputados, a senadores e ministros, a partidos políticos, ao presidente da República, a analistas, comentaristas e editorialistas de jornais e a redes de televisão Brasil afora.

Tenho postado alguma coisa aqui neste espaço, mas muito pouco em relação ao que tenho escrito.

E tenho escrito em causa própria, claro, porque sou um entre milhões de trabalhadores do setor privado que foram ou serão roubados em seus já minguados benefícios, enquanto servidores públicos continuam nadando de braçada.

Não quero aqui demonizar os trabalhadores do setor público, mas a verdade é que o sistema é injusto porque desigual ou desigual porque injusto, tanto faz.

A média dos benefícios pagos pelo INSS beira os R$ 700,00 ao mês, enquanto a média paga a servidores públicos, considerando os três poderes federais, é superior a esse valor em pelo menos 10 vezes.

Tenho esperança, sim, de que o fator previdenciário seja demolido, agora na Câmara dos Deputados, como já foi no Senado.

E minha esperança é que sua queda dê início à verdadeira reforma da previdência, aquela feita com competência, sensibilidade e senso de justiça.

Chega de remendos malfeitos, como o fator, que só atingem a parte mais vulnerável, uma minoria cuja imensa maioria nem sabe o que está acontecendo ou o que arquitetam contra ela nos bastidores do poder ou mesmo às claras.

 

Até a próxima.

 

O massacre dos inocentes

 

Vou-lhes contar uma breve história de um homem simples.

Meu pai começou a trabalhar aos cinco anos de idade, na roça, ajudando meus avós nos cafezais paulistas, onde trabalhavam como colonos.

Trabalhou até os 75 anos de idade; morreu aos 82 anos faz cinco anos, em São Paulo, morando com minha irmã.

Trabalhou durante 70 anos e sua aposentadoria não cobria os gastos com os medicamentos que precisava tomar diariamente. Eu e minha irmã custeávamos um plano de saúde desses mais baratos e o que faltava para comprar os remédios.

Foi assim. Tão simples assim, como milhões de outras histórias de outros homens e mulheres deste tão maravilhoso quanto desigual país.

Estou indo pelo mesmo caminho, seguindo os passos de meu falecido pai. Não em tudo, claro, mas principalmente enquanto beneficiário do INSS.

Comecei a trabalhar aos 10 anos, ajudando meu pai em seu viveiro de mudas de café; aos 14 anos consegui meu primeiro emprego com carteira assinada, a Carteira de Trabalho do Menor. Foi em julho de 1968, época em que menor podia trabalhar e tinha até carteira de trabalho específica.

Foram quase 38 anos de contribuição ao INSS, quando, em 2006, fui obrigado a pedir minha aposentadoria em razão do desemprego. Perdi quase 40% do benefício a que teria por causa de um instrumento cruel adotado em 1999, o famigerado fator previdenciário.

Nisso, tive ainda menos sorte que meu falecido pai, porque, aos 56 anos - e desempregado há três anos - mal tenho conseguido pagar o plano de saúde – co-participativo - e os medicamentos que tomo diariamente para controlar a hipertensão e a síndrome do pânico que venho administrando como posso há quase 20 anos.

Não é nenhum grande drama comparado a muitos que conheço.

Mas acontece que ainda nem entrei na terceira idade, por isso temo uma futura velhice ainda pior que a de meu pai, cujo benefício nem cobria as despesas com os remédios.

Tem milhões como eu por esse Brasil afora, pessoas que temem a chegada da velhice, mas não porque ficar velho seja uma coisa ruim, e sim porque o velho é discriminado, principalmente o velho que trabalhou no setor privado. É discriminado pelo mercado de trabalho (às vezes serve para porteiro de edifícios em condomínio não muito exigentes); é discriminado pela sociedade, notadamente pelos mais jovens, e é discriminado pelas autoridades governantes.

Quando chega o momento de ampará-lo viram-lhes as costas, como está acontecendo no presente momento, por ocasião das discussões acerca do fim ou da manutenção do fator previdenciário ou de qualquer outra regra que venha para amputar benefícios já tão minguados como os dos trabalhadores do setor privado.

Somos só vinte e poucos milhões, pouco mais de 10% da população. Somos, portanto, uma minoria discriminada e massacrada. A imensa maioria dessa minoria nem tem noção do que esteja acontecendo, do que estão arquitetando contra ela.

É uma minoria indefesa. Não há uma ONG sequer – a não ser as de caráter assistencialista – preocupada com esse bando de discriminados e massacrados, já chamados até de vagabundos por um governante.

Não tenho mais esperanças. E até acredito que, no ritmo que as coisas vão, não vai ser surpresa se aparecer alguém propondo o extermínio dos aposentados para acabar com o ‘rombo’ da Previdência. 

Luiz Carlos Lorencetti – Londrina-Pr.

(Texto publicado hoje na edição online do Estadão, na coluna Fórum dos Leitores)

 

Encaminhei a um dos editorialistas do Estadão, os três comentários abaixo, publicados na edição online do jornal, e os reproduzo aqui para os meus dois leitores assíduos. O editorial do centenário jornalão tem o seguinte título: "Decisão imprevidente". É um excelente exemplo de como, às vezes, a imprensa comete equívocos escabrosos.

 

Luiz Carlos Lorencetti em 20/11/09 ás 10:53
Imprevidência
Senhor editorialista, a maneira mais fácil de acabar com a fome é exterminar os famintos. Certo?
Nessa linha de raciocínio, concluímos que para dar cabo ao 'rombo' da Previdência, que aliás é bastante discutível, deveríamos exterminar os aposentados, notadamente aqueles que ganham umas quirerinhas a mais que o salário mínimo. Não é?
Então, vamos ao que interessa:
O governo não está, nem um pouco, preocupado com o déficit das contas públicas. E você sabe disso melhor que eu, pois deve ser melhor informado. Está preocupado apenas com o déficit do regime geral da Previdência, enquanto o rombo da pública cresce em absoluto silêncio. E você sabe que a corda sempre arrebenta do lado mais fraco, né?
Como não disponho do espaço que você tem - e deve ter conquistado por méritos - não vou conseguir rebater ponto por ponto as suas colocações. Aliás, só concordo num ponto: a fraqueza moral - não é eleitoral não - dos deputados.
O fator previdenciário é um mecanismo de crueldade ímpar. Só quem é vítima dele sabe.
Também acho que deva haver mudanças, mas é preciso fazê-las com competência e senso de justiça, valores que não encontramos na área publica.
Acabou meu espaço.


 

Luiz Carlos Lorencetti em 20/11/09 ás 12:23
Caro editorialista,
acredito ter o necessário bom-senso para entender que mudanças são necessárias e inadiáveis, mas que envolvam todo o sistema, o público e o privado.
E tenho até sugestões:
1 - O teto único para todos os tralhadores (acho até que já foi adotado em 2003, mas só para os servidores entrantes);
2 - A contribuição pelo valor integral do salário também para os trabalhadores do setor privado;
3 - a continuidade da contribuição prividenciária para os que se aposentarem por tempo de contribuição antes dos 65 anos de idade.
O que me angustia é a abissal diferença de tratamento entre os dois regimes e que você, aliás, conhece melhor que eu.
A crueldade do fator está no fato de ter atingido os trabalhadores na ativa, sem qualquer consideração em relação, por exemplo, ao tempo que já haviam contribuido. Há casos em que direitos adquiridos, quando não se trata de privilégios, têm de ser respeitados sim. O que não aconteceu com a edição do fator.
Não vou convencê-lo, nem é minha intenção.
Mas acontece que há um drama humano por detrás dos números oficialescos nada confiáveis, produzidos em gabinetes suntuosos.
A caixa preta precisar ser escancarada!
Faça sua parte!

 

 

 

Luiz Carlos Lorencetti em 20/11/09 ás 12:54
Desculpe a minha insistência, mas acontece que sou prolíxo e o espaço é exíguo.
Sei que o guarda-chuva tá ficando pequeno pra tanta gente, mas há remendos temporais e reformas profundas. Qual você prefere?
Na iniciativa privada, quando o fluxo de caixa anda mal das pernas, o empresário incompetente demite, corta cafezinho, água e benefícios; o competente vai em busca de mercado e investe para manter-se saudável, operante, perene no mercado.
Na área pública, não há dinheiro que chegue. Não é isso? E por que? Você sabe e eu também sei:
INCOMPETÊNCIA!!!
Por que, por exemplo, o governo não facilita as contratações, a abertura de empresas, a ampliação do mercado formal de trabalho? Só fala, mas não faz.
No Brasil, gerar emprego chega a ser um ato de insanidade, em razão da burocracia e da voracidade governamental.
É, meu amigo, pagamos caro para viver neste maravilhoso país.
E nós, os aposentados, estamos pagando por uma conta que não geramos. Claro, nós e toda a sociedade. Só que vão apertando os mais indefesos.

Difícil defender isso ou aquilo, não é?

 

Acabar com o ‘rombo’ da Previdência massacrando os aposentados é o mesmo que exterminar os famintos para acabar com a fome.

 

O Estado é um grande e generoso empregador; as aposentadorias do setor público são geralmente nababescas e têm rombo muito maior que o do regime geral – leia-se INSS.

Pois é! Mas mexeram – governo FHC – justamente na parte miserável da previdência, a dos trabalhadores do setor privado, aqueles vinte e poucos milhões que recebem em média pouco mais de um salário mínimo. O que quer dizer que a imensa maioria, dois terços, recebe apenas um salário mínimo de benefício.

Criaram um mecanismo cruel e sanguinário chamado fator previdenciário, que também poderia ser chamado de fator de desigualdade. Ele amputa os benefícios daqueles que contribuíram por 35 anos ou mais e pedem a aposentadoria antes dos 65 anos de idade. Não era assim até 1999, mas o governo FHC mudou a regra do jogo para os que já estavam jogando. Ou seja, no meio da partida o juiz soou seu apitou e avisou: agora não tem mais impedimento, nem falta. E salve-se quem puder.

A queda do fator previdenciário foi aprovada no Senado e está em discussão na Câmara. Mas o governo lulo-petista, que era contra a sua adoção pelo governo FHC, agora quer a sua manutenção.

É claro, né! Os petistas estão todos empregados no serviço público.

Tenho escrito quase que diariamente a jornais de circulação nacional e a parlamentares da nossa base, colocando minha posição sobre o famigerado fator previdenciário, o mais cruel dos crimes cometidos contra o trabalhador brasileiro.

Sou vítima do fator e vou lutar contra ele enquanto puder.

E quem não concordar que se manifeste.

Os que concordarem também podem se manifestar, claro.

Até mais.

 

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